shopping avenida
O que vou fazer nesse mundo sem saber
Por onde andar, onde tu está…
Além do Horizonte,
Banda Líbanos
Estava andando pela Dom Luís e esbarrei com um amigo que não via há tempos. Trocamos amenidades e segui para o Shopping Avenida, vazio como sempre. Fui até o terceiro andar, onde, supostamente, era para ter havido um cinema. Não sei se chegou a existir, mas lembro de assistir a um filme perdido dos anos 2000 lá. Na tela, duas mulheres observavam uma cantora desmaiar no palco. Elas choravam e tudo se apagava. Essa é a memória, além do cheiro de mofo e do barulho de alguém comendo pipoca como se estivesse mastigando capim.
Fiquei olhando o vazio que poderia ter sido o cinema, que foi o cinema. Quase todas as lojas estão fechadas. Sentei em um banco velho de madeira. Alguém passou correndo para ir ao banheiro; talvez fosse o mais limpo do shopping. Depois de um tempo, desci para o segundo pavimento e vi um salão de beleza que parecia ter parado na década de 90, onde as atendentes cantavam desafinadamente uma música antiga da Cavalo de Pau. Vivo a sonhar com você. Eu quero ser feliz. Estar em seus braços. Beijinhos e abraços. Contigo eu faço o que sempre quis.
Comecei a sentir que precisava sair dali. Eu não tinha história alguma naquele lugar; só queria forçar algo que não aconteceu. No térreo, procurei a saída mais próxima e me vi no escadão em frente à Paróquia da Paz. Anos atrás, tive uma epifania nesse mesmo lugar: imaginei uma outra vida. Viajei entre Fortaleza, Rio, São Paulo e Holanda. Decidi que não iria mais criar um sentimentalismo nesses espaços; precisava adentrar novos, inventá-los se fosse necessário.
Dessa vez, não fui para o Del Paseo. Encaminhei-me para a Praça Portugal. O céu começava a ficar azul-escuro e a Dom Luís, engarrafada. Parei numa banca para comprar cigarro e uma cerveja. A luz excessivamente branca do lugar me perturbava. Pensei em passar pela Maria Tomásia só para ver o prédio que frequentei tantas vezes, mas nem sabia se ainda havia algo lá. De qualquer modo, não poderia entrar na escada de emergência; nem lembraria para qual apartamento interfonar.
Fui para um canto mais escuro da praça e fumei uns três cigarros. A boca ficou seca. Estava sem celular, não teria como recorrer a ninguém. A Desembargador Moreira se apresentou como uma rota de escape. Subi a avenida, atravessei a Santos Dumont, parei na Praça das Flores, escura e vazia, e andei até a cruz que ficava no meio dela. Tive vontade de ajoelhar, mas me contive. Escutei um barulho e tentei decifrar o que era. Não consegui. Saí correndo até chegar ao Center Um.
O saguão estava um marasmo. Uma ou outra pessoa entrava no Pão de Açúcar. Escorei-me numa pilastra para recuperar o fôlego e subi as escadas. Caminhei até o fim do corredor e, atrás de tapumes já meio podres, vislumbrei um letreiro capenga e banguela: C N G ZE A. Era ali. Foi ali. O ponto de encontro onde, no escuro da sala, mãos entraram na minha cueca. A aliança gélida no meu pau. Um beijo melado. Com o olho enfiado numa fresta, me vi saindo do cinema e indo ao banheiro. Um homem mais velho saiu logo depois. Nunca o conheci. E aquele eu não era eu.




