Yuri
um retrato borrado
(imagem de capa: Peter Hujar Dreaming/Yukio Mishima: Saint Sebastian, 1982.)
O segredo é sobreviver.
John Lennon para David Bowie
Parece alguém de outra galáxia, Gabriel me disse.
Eu olhei ao redor e não vi ninguém. A rua estava vazia.
Quem?
O Yuri.
Ah.
Fazia alguns anos que não pensava nessa pessoa. Tinha ficado no passado, como tantas outras pessoas, habitando um outro espaço-tempo. Era domingo e caminhávamos pela Dom Luiz. Durante muitos anos, essa rua era apenas uma memória na qual acessava por meio das histórias que escrevia. Tive uma sensação estranha de estar ali. As lojas que conhecia já não estavam mais lá, a atmosfera era outra, mas parecia que tinha estado lá esse tempo todo, acompanhando todas as mudanças. Como se nunca tivesse saído dessa cidade e passado quase uma década longe. Eu entrei num portal temporal, daqueles onde você vive uma vida inteira dentro dele e, quando volta, só se passaram cinco minutos.
De qual galáxia você acha que ele é?
Não sei, ele não tem a vibe de cearense, mas também não tem a vibe de lugar nenhum.
Bom, difícil opinar, já nem me recordo da voz dele.
A gente trabalha no mesmo hospital, sempre nos esbarramos na cantina. Da última vez, conversamos sobre aquela época, quando você ainda tava aqui. O papo foi meio… estranho, talvez? A memória dele parecia meio distorcida.
A dele e a de todo mundo, né?
Quando me dei conta, já estávamos na esquina do Shopping Aldeota.
Quer ir comer alguma coisa?
Pode ser.
Aliás, pode ser no Del Paseo? Acho a praça de alimentação do Aldeota meio ruim.
Verdade. Vamos dobrar aqui.
Descemos a Barbosa de Freitas e, na esquina do Del Paseo, pedi pro Gabriel me esperar fumar um cigarro. Acho que nunca fumei nessa rua, a Maria Tomásia. Desde os dezesseis anos consigo sair da José Vilar e vir até ela de olhos fechados. Uma das minhas últimas memórias vívidas de Fortaleza é ver o Abner correndo em direção ao seu prédio, que ficava a duas quadras dali. Enquanto estava no Rio, pensei muitas vezes sobre esse momento. Tento entender como essa ocasião me marcou tanto. O porquê de ela sempre voltar. Dentro de tantas lembranças, tantas nóias posteriores. Poderia relembrar dos sustos que tomei no Rio. O mundo oferece tantas opções de acontecimentos na qual você pode se emburacar e achar que a vida se resume àquilo. Acho incrível como você pode estar em vários lugares ao mesmo tempo, passado e futuro juntos. Estou no Rio à medida que estou em Fortaleza. Nesse limbo, me sinto à vontade para usar nomes reais, afinal, não é a realidade. Puxo na cabeça quem poderia ser o Yuri, em que me basearia para lhe dar vida. Lhe dar algum sentido. Deixo o Gabriel criá-lo por mim. Apago o cigarro e jogo no lixo. Entramos no shopping.
McDonalds?
Total.
Subimos o elevador, pegamos nossos lanches e sentamos numa mesa. A praça de alimentação estava meio vazia. Quando dei a primeira mordida no sanduíche, senti uma certa ansiedade e quase não consegui continuar. O Gabriel comia com prazer, dava para ver nos seus olhos. O cheddar no canto da boca.
Sabe quando uma sensação antiga te invade? Tipo, minha cabeça ficou preocupada com uma coisa que já foi resolvida, mas agora é quase como se estivesse vivendo aquilo de novo.
Oi? Comassim?
Fui invadido pela mesma sensação que tive quando transei sem camisinha e fiquei esperando dar o tempo da janela imunológica para fazer os testes.
É… Assim, sendo bem honesto contigo, não me lembro disso ter acontecido comigo não.
Então, não é como se eu estivesse aqui e sim lá no passado. Quer dizer, minha cabeça está lá. Estou aqui te vendo, mas é como se o corpo daquele Rodrigo do passado tivesse aqui agora.
Hum… acho que saquei. Nem sei o que te falar. Mas se quiser conversar sobre.
Não foi nada, quer dizer... Minha mente continua naquele período onde ainda não sabia a resposta. Isso tá me angustiando. É como se eu ainda quisesse saber qual seria o resultado do teste.
Rodrigo, isso foi no Rio de Janeiro. A não ser que não tenha feito o teste, alguma resposta você tem. Fez ou não?
Não… Quer dizer, eu fiz, mas a resposta sumiu da minha mente e voltei pro limbo da espera. Estou preso, saca?
Amigo, talvez seja, sei lá, tua cabeça te enganando pra te deixar ansioso.
Vamos perguntar às cartas.
Oi?
Pego meu celular e abro o aplicativo de inteligência artificial. Digito: tire um jogo de tarot completo acerca do meu próximo mês, levando em conta se terei alguma revelação médica. Mostro a tela para o Gabriel, que me olha confuso até entender.
O resultado é longo, passo o olho e me acalmo. Nada de mais. Espero que o jogo esteja certo. Lembro de ter feito essa pesquisa e ela ter baixado minha bola. Eu estou no passado enquanto estou nesse presente enquanto estou nesse futuro. O corpo e mente em diversas linhas temporais. Fecho os olhos e bebo a Coca-Cola aguada.
Amigo?
A Ana Letícia me cutuca. Estou deitado no banco em frente a biblioteca. Alguns alunos matam aula no pátio. Esse é um momento no qual sempre volto. Marco zero da minha vida consciente. Foi nesse dia que conheci o Abner e tudo aconteceu até aqui. Já contei esse momento tantas vezes, das mais variadas formas. Não vem mais ao caso. Preciso partir para outro lugar. Onde? Em qual lugar do passado posso me ancorar no futuro? Penso no que tem me deixado aflito, no que me faz acreditar que a vida pode acabar em breve. Uma revelação precisa ser feita para que eu consiga continuar. É necessário esperar mais duas semanas. O natal está chegando, se a resposta for negativa, será um presente. Uma chance de começar a vida do zero. O resultado tem que ser não. Tento voltar para a praça de alimentação com Gabriel. Ainda quero saber por que Yuri parece de outra galáxia. Quem é Yuri? Ele é uma mistura de quais amigos?
Estou quase desmaiando de calor dentro do 112, tendo uma prova do clima de Fortaleza. Do caminho que fazia do Renato Braga até minha casa. O sol assassino ao longo da Barão de Studart. Muitas lojas e restaurantes fechados, apenas as farmácias sobreviventes, uma em frente a outra. Tão diferente da Jardim Botânico, onde não falta comércio e gente pra lá e pra cá. As duas ruas tão distantes e tão próximas, a mesma linha reta que liga lugares onde passei por anos. O mesmo caminho há tanto tempo. O ônibus pára em frente à antiga rua de Roberto. Ele morava em um prédio no meio dela. Quantas vezes subi a escada bamba do terraço só para mamá-lo. Uma vez, num churrasco lá, fomos para o cantinho e nós pegamos. Eu engoli sua porra pra não deixar vestígios, os amigos dele nem perceberam nosso sumiço. Algumas semanas depois, Roberto simplesmente sumiu, parou de responder minhas mensagens. Eu não queria nada além de sua amizade. Talvez o fato de ter sido efetivado em um jornal de renome o fez achar que não precisava mais da minha amizade. Até hoje, finge que não me conhece. Não foi a primeira vez que isso aconteceu. Sinto que sou uma escada de terminal de ônibus, várias pessoas passam, às vezes em momentos vulneráveis, esperam seu transporte comigo e depois vão embora. Tudo bem. Violinos ressoam no meu fone de ouvido e volto para o futuro longínquo, inexistente, da minha estada em Fortaleza. Hora ou outra deve acontecer. Alguma merda deveria acontecer para eu voltar? Como conseguiria? A vida adulta exige responsabilidades. Meus livros, a matrícula na faculdade, o contrato de aluguel. É possível jogar tudo para o alto? Chega um ponto em que desistir é quase impossível.
A imagem de Gabriel com cheddar na boca ainda está estática na minha mente. Eu estou lá, mas não estou. Vejo a tela do meu computador de trabalho. É sexta. O verão batendo à porta. À noite tenho uma confraternização, amanhã tem o aniversário de um amigo querido, depois uma festa que não tenho certeza se quero ir. Olho para dentro de mim e é como se não me reconhecesse. Brinquei tanto com isso outras vezes, de que minha vida era dominada por outro alguém que hoje já não sei mais quem eu sou, quem é o Rodrigo de que tanto falo. Coloco um disco que me acompanhou nos últimos anos, buscando alguma inspiração. Desejo falho de resposta. Há um vão. Melhor, um vácuo. Existem tantas histórias que adoraria contar, mas sempre erro as versões ou não consigo continuar. Minto para mim mesmo que as horas no Instagram são fazendo pesquisa para criar personagens. A minha única criação sou eu, ou aquele que se apresenta às pessoas como Rodrigo Batista e mesmo assim não é suficiente. Sinto que há um certo escárnio ao que sou, talvez exponha demais o Rodrigo Batista e sou menos eu. O grande problema é que não tenho personalidade e o Rodrigo ao menos tenta ter alguma ou ser algo. Essas tentativas parecem não dar em nada. Ano passado, nesse mesmo período, fui convidado para um aniversário. Devo ter sido chamado porque sempre ajudo o aniversariante a entrar em festas quando estamos em Paraty. Eu estava fazendo um extra natal no shopping perto de onde aconteceria e fui assim que saí do expediente. Quando cheguei no endereço, me deparei com uma mansão. Subi uma rampa escura e encontrei o anfitrião colocando as bebidas numa tina de gelo. Conversamos um pouco e os outros convidados foram chegando, inclusive Roberto, que me deu um oi e partiu para longe. Eu não conhecia quase ninguém ali. Um garoto de voz grossa se aproximou de mim e começamos a conversar. O papo fluiu. Ele se chamava Marcos, era de Niterói, mas morava em São Paulo. Durante boa parte do tempo que passamos trocando ideia, não imaginei que Marcos queria ficar comigo, até que os donos da festa me falaram pra beijar logo ele e assim o fiz. Fomos para o estacionamento e nos pegamos. Aparentemente, tudo correu bem. Trocamos contatos e Marcos falou que me procuraria quando voltasse ao Rio. Depois disso, nunca mais nos falamos até umas semanas atrás, quando nos encontramos no aniversário de um dos anfitriões dessa festa. Ele não quis papo. Vida que segue. Nem sei por que estou contando essa história, talvez para me fazer de coitado. Minha especialidade. Talvez para me fazer marginal ao mundo gay. Se fosse outro, iria atrás de entender a dinâmica por trás disso. Mapear os meandros, criar uma boa ficção para mascarar questões ocultas e poder desfilar com pompa um suposto talento literário. Gostaria de dizer que estou pouco me fodendo, mas no fundo me importo se o que faço é bom ou ruim. Pelo visto, os sinais são poucos animadores. Primeiro porque estou cagando e andando em fazer uma radiografia do Brasil, segundo porque odeio qualquer tentativa de floreio literário e terceiro porque faço a chamada literatura de nicho e não sou descolado para que gays e literatos prestem atenção ao que faço. Me questiono se produzo literatura, porém fico cansado só de cogitar algum debate sério. No fim, escrevo aquilo que gostaria de ler. Fabulo ficções para dar algum sentido às imagens nas quais sou bombardeado todos os dias. Aqueles que nunca serei, aqueles que jamais me aproximarei, aqueles que me olham com asco, que tem repulsa a mim — não sou bom o suficiente para a maioria das pessoas, não sou cool, não sou desejado, não sou alguém. Preciso criar um outro que esteja longe do Rodrigo. Ele poderia ser o Yuri que Gabriel falou. Alguém perdido nos confins dos meus sonhos adolescente na longínqua Fortaleza dos anos 2010.
Gabriel pede para ler o jogo de tarot e passo o celular para ele.
Conseguiu sair da nóia?
Demoro para raciocinar.
Sim, sim. A gente pode voltar a falar do Yuri?
Mas sobre qual parte?
Como foi mesmo que nos conhecemos?
Ah, ele estudava comigo no ensino médio e num show aleatório no Dragão do Mar, te apresentei a ele. Vocês ficaram e ele meio que grudou em ti. Lembro de te ver rolando com ele na grama da Praça Verde, tava tocando aquela música do Bob Marley… qual o nome mesmo? Could You Be Loved.
Sim, agora tudo veio. Era um show do Selvagens à Procura da Lei. Eu tomei três shot de uma bebida que se dizia Tequila por dez reais e minha cabeça girou antes mesmo do show começar. Yuri usava um perfume cítrico, tanto que nossa primeira interação se deu porque soltei sem querer que queria lamber ele. Era um cheiro refrescante. Na época, o Gabriel estava saindo com Tadeu, um garoto chato que, anos depois, virou um desses gays que devem me olhar com asco. O show começou e terminou e não consegui prestar atenção em nada, só no aroma de limão de Yuri. Quando um DJ entrou pra continuar a programação, começamos a nos pegar. Ele chupou e mordeu meu lábio até ficar inchado. Isso aconteceu em um período no qual estava separado do Abner. Durou pouco, um mês. Eu e o Yuri tivemos um affair, mas aí o Abner reapareceu e eu voltei que nem um cachorrinho. O resultado dessa escolha terminou com uma viagem sem passagem de volta para o Rio de Janeiro. Até tentei manter contato com o Yuri, mas acho que o fato de eu ter dado um fora nele repentinamente não ajudou. Eu ainda o sigo no Instagram, mas ou suas postagens são parcas ou sequer aparecem para mim.
Pensei que ele tinha esquecido de mim. O que ele lembrou?
Ele falou que vocês namoraram. Até onde sei, vocês só ficaram intensamente por umas semanas. Não foi isso?
Tento relembrar mais claramente os momentos com Yuri, mas tudo não passa de um borrão. A gente tinha uma química incrível. Tudo se conectava. Gostávamos das mesmas coisas, tínhamos as mesmas referências. Se não me engano, até o nosso mapa astral era parecido.
Você tem o número dele?
Tenho. Pera, vou te…
Ao longe, vejo um vulto conhecido se aproximando. Não consigo reconhecer até que ele esteja bem próximo. Yuri. Seu rosto é um borrão, mas o vejo.
Oi…
Gabriel ainda come o sanduíche. O cheddar se espalhou por seus dedos. Ele tem dezesseis anos. Eu lembro dessa versão dele.
Você viu o Yuri?
Ele tava aqui?
Sim. Tava vindo em nossa direção. Pera. Quantos anos você tem?
Oi?
Temos vinte e sete ou dezesseis?
Quê?
Eu tenho vinte e sete.
Não, maluco, você tem dezesseis. Eu tenho dezesseis.
Gabriel…
Yuri senta à mesa. Dá um abraço em Gabriel e finge surpresa ao meu ver.
Menino, quanto tempo.
Yuri me olha por um tempo e dá um sorriso.
Parece que nada mudou. Tipo, você ainda tem a mesma cara.
É… Digo o mesmo pra ti.
Dou um risinho. Penso no que mais poderia falar.
Não sabia que cê tava em Fortaleza.
Preferi não fazer alarde e não tinha seu número.
Voltou de vez ou só férias?
Ainda não sei.
Ah, pô, deveria ter me falado. Eu sempre encontro o Gabriel lá no hospital. Tamos sempre no mesmo plantão.
Ele comentou.
Yuri ainda não tocou no seu lanche. A minha coca-cola acabou. Penso em levantar para pegar o refil, mas me contenho. Gabriel ainda come seu sanduíche infinito.
Posso te fazer uma pergunta?
Claro, fala.
Quantos anos temos?
Ué. Vinte e sete.
O Gabriel disse que tinha dezesseis.
Só se for em cada perna.
Rimos. Gabriel termina de engolir para falar.
Nunca disse isso.
Então…
Vem cá, deixa eu te falar. Não gostei do que tu fez comigo final de semana passado no Dragão.
Oi?
Isso mesmo. Deixou meu lábio inchado.
Gabriel ri.
Olho para Yuri e o vejo com dezesseis anos.
Pera. Que merda que…
Gabriel se levanta e leva a bandeja até o lixo. Yuri não está mais sentado. Quando volta, Gabriel me olha curioso.
Vamos?
Amigo, calma. O Yuri tava aqui.
Rodrigo, você não tá bem. Não tinha ninguém aqui. E outra, nem sei quem é Yuri.
A gente tava falando sobre ele, sobre como vocês sempre se esbarram nos plantões.
Plantões?
É, no hospital.
Cara, eu sou analista, trabalho de casa. Você sabe muito bem disso. Tá me confundindo com outro.
Não…
Olho para Gabriel e percebo que ele não é o Gabriel Martins e sim o João Gabriel. Vejo ao redor e estamos na praça de alimentação do Shopping Tijuca.
Desculpa, viajei na maionese. Tava pensando na história que estou escrevendo.
João Gabriel parece confuso.
Você chegou a comentar algo sobre algum amigo seu chamado Gabriel, mas não sobre Yuri.
O que mais falei sobre essa história?
Ah, causos que você já contou várias vezes e alguns pensamentos soltos, mas isso, pelo visto, está presente em todas as suas narrativas. Inclusive, vi algumas repetições.
Eu sempre me repito. É inevitável. Posso te pedir uma coisa?
O quê?
Posso usar seu nome real?
Pode. Os outros são?
Sim.
Você não tem medo?
Não. Nenhum envolvido vai ler.
Tem certeza?
Absoluta. Ninguém tá nem aí.
Será que o Yuri vai descobrir? Sei lá, podem enviar pra ele.
Bom, se você quiser, pode enviar. O número dele é 21992590654.
Pera, esse é o…
Yuri anota o número e guarda o celular no bolso.
Obrigado, agora podemos nos falar. Gabriel, o que acha de irmos à praia na terça? Tá livre, Rodrigo?
Sim…
Ah, deixa eu te perguntar: por que nunca estive nas suas histórias? Li todas que você postou no Instagram e as do livro. Reconheci tanta gente…
Estava esperando o momento certo.



